RIO - De saída, Mallu Magalhães foi revelada como fenômeno da internet, a primeira artista do país a pular das páginas do MySpace para o "mundo real". Reconhecida, ela virou então a mais nova descoberta da música brasileira, precoce e delicada, ainda que boa parte de seu repertório até hoje seja escrito em inglês. Veio então à tona (e contra a vontade do casal) o namoro com o cantor Marcelo Camelo, que tem o dobro de sua idade - o romance se tornou o mais comentado da música brasileira em muito tempo. Agora, todos esses lances estão costurados no segundo disco da cantora paulistana de 17 anos, que cresce em praça pública, a olhos vistos, com a coragem própria dos adolescentes. E as dores próprias desse crescimento.
- Na verdade, o caso é que todas elas (as músicas) são confissões. Não é que eu tenha a intenção: eu faço o treco e, poxa, fiz e pronto. Dessa vez, fui me libertando e possibilitando compor tão sinceramente em português como já fazia em inglês. Mas é lógico que tenho medo. O problema de se abrir o coração desse jeito é que as pessoas têm armas para jogar em você. E quando você está de coração aberto elas te acertam direto lá - constata. - Mas aprendi a me preparar para o que vier.
"Mallu Magalhães", o disco, é em grande parte uma declaração de amor a Marcelo Camelo, "aquele que faz bater meu coração", como escreve nos agradecimentos do CD. São diretamente para o (ex?) músico do Los Hermanos os versos de "Te acho tão bonito" e são sobre seu relacionamento com ele músicas como "Soul mate", "É você que tem" e "You ain't gonna loose me". Em "Make it easy" o recado é para sua mãe, na letra em inglês que pode ser traduzida como "Têm sido dias difíceis para a mamãe/ E dias difíceis para mim também / Eu sigo lutando pelo meu amor / Como uma mulher / E mamãe chora".
- Ela chorou de emoção quando ouviu a música. Ela é o máximo - diz Mallu, antes de perguntar: - De que adianta você sentir tantas coisas se não puder deixar isso marcado?
" O problema de se abrir o coração desse jeito é que as pessoas têm armas para jogar. E quando você está de coração aberto elas te acertam direto lá "
Apesar da precocidade, Mallu ainda é muito nova. Ela faz 18 anos apenas em agosto, ainda mora com os pais, está no 2º ano do Ensino Médio e não pensa, por enquanto, em fazer vestibular. Diz ter interesses dispersos, que ela preenche em cursos de jornalismo, moda, ilustração, corte e costura. E sabe, como qualquer jovem de sua idade, que escola nenhuma atende inteiramente a suas ambições.
- Quando você faz 14, 15 anos já sabe o que quer - é quando começa a detestar a escola. Por que eu tenho que fazer 357 exercícios sobre o mol (unidade base do sistema internacional de unidades)? Nossos jovens são inteligentes, puros e naturalmente talentosos, porque são brasileiros, e precisam ser mais ouvidos. Mas a escola também ajuda a criar disciplina, que é importante para olhar as questões da vida e pensar nas respostas - diz, com seu modo sempre lúdico de falar.
Que é, por outro lado, motivo de críticas e maledicências, pelo jeito elíptico, muitas vezes cifrado, com que Mallu gosta de responder a perguntas que lhe são feitas nas entrevistas. Não que ela se considere uma pessoa difícil de entrevistar.
- Principalmente agora que estou aprendendo a falar melhor, de forma clara, direta.
Mas também sabe, como seu ídolo Bob Dylan, usar truques para se vingar contra os que a provocam. A aparentemente frágil Mallu também tira sarro. Afinal de contas, ela é adolescente; irritar os "adultos" pode se tornar algo irresistível para ela.
- É como se te cutucassem, aí você responde. Sou doce mas não sou besta - avisa.