Claudio Dirani, especial para o site Alpha FM
A Alpha FM ouviu “Mallu Magalhães” uma semana antes de ele chegar às lojas. Descubra o que aconteceu com a jovem artista 365 dias após sua estreia
No processo de gravação de seu novo trabalho, Mallu Magalhães sofreu das mesmas incertezas que passaram os maiores nomes da música, e que os herdeiros do pop irão atravessar “até chegar lá”. Do Queen ao Coldplay, dos Paralamas ao Legião Urbana, mente quem jurar que não sofreu da (im) popular “síndrome do segundo álbum”. Outra verdade é que partia da crítica e do público uma ansiedade enorme para saber se Mallu tinha cartas na manga para dar sequência a sua jornada musical. Se esperava, no mínimo, que ela repetisse a tática que deu certo no primeiro CD, e que atraiu fãs de 8 a 80 anos em sua estreia. “Em time que ganha não se mexe”, dizem.
A expectativa chegou ao fim quando pude ouvir as 13 faixas quase exatamente um ano após entrevistar nossa protagonista, a serviço da Alpha FM, minutos antes de um pocket show armado na livraria Fnac da Avenida Paulista. A primeira sensação? Surpresa. Primeiro, porque minha antecipação era receber uma leva de boas canções, sem fugir muito da linha do primeiro. E segundo, porque não acreditava no mix com a MPB “descoberta por Mallu”. Confesso: meu pré-conceito me impedia de aceitar que ela também reduzisse o número de letras em inglês. “Não ia dar certo” – pensava, de forma prepotente. Gostei de errar. E explico os motivos.
Principal suposição: a troca de produtor contribuiu para a virada do som, em muitos casos, de forma radical. Mario Caldato (certamente não por falta de competência, mas por escolha particular) passou o comando para Alexandre Kassin (Los Hermanos, Caetano e Mautner etc), que notoriamente escolheu arranjos mais luxuosos para algumas de suas criações, como metais e cordas e arranjos mais complexos no comparativo ao CD número um. Arrisco dizer, a produção contou com certa dose de experimentalismo. Uma cartada radical que pode significar o risco de perder fãs que preferem a equação: banjo, gaita e violão. Questão de se acostumar com esta faceta, ainda que a “velha Mallu”, escrito assim de forma exagerada, aparece de forma esporádica no álbum. Ah, sim, não há muitos refrões nas canções recentes. Quem espera uma “Tchubaruba – parte 2” pode continuar ouvindo o primeiro CD. E sem culpas. Não há uma música chiclete à primeira audição. De fato, difícil escolher um single imediato. “Shine Yellow” seria uma boa opção, mais para o lado do reggae pop. “Compromisso” tem letra bacana e melodia feita para não se cansar de cantar. Quem sabe “You Ain’t Gonna Loose Me”, e seu clima country (esta sim remete a “Don’t You Look Back”, do primeiro disco). Mais novidades sobre o segundo (e quase sempre difícil) CD: as letras e as melodias, que em ocasiões lembram o que era pop nos anos 40 e 50 no Brasil.
Para fechar a conta, digo: um ano pode ser pouco para quem já tem uma discografia longa e variada. Mas para quem está só começando, pode significar vida ou morte artística. Fala sério: não podemos ser assim tão radicais. O show está apenas começando. A mudança não foi tão radical assim.
Confira agora as impressões do CD e no mês que vem uma entrevista exclusiva com Mallu Magalhães
My Home is My Man – Elétrica. A Abertura do álbum não dá tantas pistas do que acontecerá no resto dessa trilha. Rock direto com harmonias vocais bem diferentes, com colaboração definitiva da banda.
Nem Fé, Nem Santo – As primeiras notas são acústicas e você acha que a música vai receber uma cobertura de açúcar. Ai, poucos segundos depois você sente um gosto apimentado por guitarras, que às vezes tem eco e distorção. Blues eletrificado à moda Dylan e letra mais madura, acompanhada por um órgão que soa como o clássico Hammond.
Shine Yellow – De seu ídolo Dylan para outra lenda inspiradora: Bob Marley. “Shine Yellow” é o single imediato aos ouvidos de que gosta de Mallu bem divertida ao estilo “Tchubaruba”. Com direito a orquestra de metais. “Jamaicana al dente”.
Versinho de número 1 – Estreou ao vivo ainda em 2008. Mas entre as apresentações no palco e a produção no estúdio, muita coisa mudou. A segunda parte da música é bem experimental, com a cara de coisas contemporâneas da MPB. Sim, Los Hermanos veio a minha cabeça. E irá para a sua também. Ah, sim, com uma pitada de Wilson Simonal no tempero.
Make It Easy – Soa preguiçosa e malevolente, com toques do bom pop independente contemporâneo. Já era conhecida de uma gravação feita para o site www.mallumagalhaes.com.br. Em “Make It Easy”, Mallu canta como se pedisse aos que ela ama levar as coisas mais com calma. Ou canta para si própria, enquanto busca acertar.
Compromisso – Criativa. Escrita como se fosse um diário que fala sobre a rotina de qualquer um que vive entre os compromissos da vida de estudante, e a escalada pelo showbiz. A letra honesta ganha peso com o riff de guitarra que faz a base com bastante afinidade à palavra cantada.
Te acho tão bonito – Uma inversão no clima do álbum até o momento... Clarinetas e outros metais predominam e dão à faixa um ar anos 40. A música passa como uma brisa, e parece um curta-metragem que entra no meio do filme principal.
A próxima se chama Ricardo. Então, você não desconfia que o inglês será o idioma predominante. Estilo indescritível. Para mim, o erro é que sua duração, infelizmente, é muito breve. 1 minuto e 53 segundos. Favorita.
Bee On The Grass – O título tem duplo sentido: Be on the grass – fique na grama..no caso, seria uma brincadeira como “abelha na grama”. O trocadilho se encaixa na proposta experimental do CD. Os vocais entram numa espécie de túnel e os vocais mixam David Bowie com Secret Machines e até a dupla novaiorquina indie The Pierces. Jazzy e psicodélica.
O programa continua com Soul Mate, que lembra mais coisa como “Swalk”, do primeiro álbum e por isso não tão interessante quanto o resto do material. Meio bluegrass, meio pop, que pode não conquistar mais fãs, mas com certeza irão manter os que já são.
O mesmo vale para You Ain’t Gonna Loose Me, delicioso country à moda de “Don’t You Look Back”. Só que mais lenta. Não ficaria fora das trilhas de bangue-bangue, com direito a solo de banjo e sotaque carregado sulista dos EUA.
Introdução de cordas, com violinos e celo em É Você que Tem – uma valsa que traz de volta o ambiente de Te Acho Tão Bonito. Descaradamente, uma homenagem para alguém que se ama muito. O show aqui fica para os arranjos instrumentais que se combinam um violão que faz a marcação em 3/4.
A cortina se fecha com “O Herói e o Marginal”, que também já era conhecida do público que acompanha a cantora na estrada. A introdução instrumental mais longa do álbum. Citações da “Indústria Brasileira” lembram um pouco o clima de “O Preço da Flor” do primeiro disco. Tem um clima de jazz moderno, que junta improvisação com versos mais curtos. Não é a música mais inspirada para este autor dessa coleção, mas a idéia de encerrar o CD nesse clima comprova que o segundo passo musical de Mallu foi em rumo a uma nova ordem. E com progresso.